quinta-feira, 16 de maio de 2019

ESCREVIVÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS: REGISTROS DO VIVIDO DE PRÁTICAS DECOLONIAIS NA EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS

Por Célia Cristo*

As “escrevivências” são narrativas constituídas tendo como lugar de fala
a escrita na primeira pessoa. Neste caso, a narrativa da trajetória de
professoras negras tendo o chão da escola pública, um dos meus
principais lugares de fala e de escuta. Trazendo práticas emancipatórias
de educadoras negras e no diferencial de um trabalho com foco no
chamado “ensino fundamental” na rede municipal de ensino de Duque de
Caxias, Baixada Fluminense - Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A
centralidade está na perspectiva emancipatória localizada no trabalho de
mulheres negras e tem pontos de contato com estudos de cunho
etnográfico e autobiográfico.

Para contextualizar a fala, no campo das (auto) biografias, destaca-se a
pesquisa de Bueno (2002, p. 13):

No âmbito dos estudos mais recentes sobre formação de professores
notável a ênfase que se tem posto sobre a pessoa do professor, aspecto
este nitidamente ignorado, ou mesmo desprezado, nos períodos
anteriores à década de 1980. Essa viragem, tal como António Nóvoa
caracteriza o redirecionamento das pesquisas e das práticas de formação,
tem início, segundo ele, com a obra de Ada Abraham – O professor é uma
pessoa – , publicada em 1984, pois é a partir de então “que a literatura
pedagógica foi invadida por obras e estudos sobre a vida dos professores,
as carreiras e os percursos profissionais, as biografias e autobiografias
docentes ou o desenvolvimento pessoal dos professores” (Nóvoa,1992,
p.15).

Mesmo sendo objeto recente de pesquisas, professores(as), sobretudo, as
professoras negras, têm muito a relatar. Para tanto, tomamos por
empréstimo algumas reflexões da tese de doutoramento do professor
Dirceu Castilho Pacheco cujo trabalho (auto) biográfico revelou traços
importantes de sua memória enquanto docente, junto aos de outros
docentes, bem como as práticas pedagógicas tecidas no chão da escola
surgidas nos diferentes espaçostempos dos/nos cotidianos escolares.
Segundo Pacheco (2008, p. 169):

Discriminada ao ser considerada para as pesquisas hegemônicas uma
atividade menor e de forma indevida como meramente repetitiva, as
práticas e, nelas, as ações singulares dos/das praticantes presentes
nesses registros do vivido são constituintes fundamentais para se pensar
e refletir as escolas em seus movimentos cotidianos.

O registro das práticas docentes torna-se valorizado, pois coloca os
profissionais da educação, não apenas os professores (entendendo que
todos educam), mas também os demais componentes da comunidade
escolar como diretores, membros da equipe técnico-pedagógica, pessoal
administrativos, estudantes, responsáveis, equipe da cozinha, porteiros e
equipe de limpeza, como sujeitos, na condição de protagonistas com
relevantes contribuições para o campo da educação.
Dentre outros argumentos que justifiquem as (auto) biografias, neste
caso para a formação de professores, Bueno (2002, p. 22), citando
Dominicé, destaca que:

Argumentar nestes termos supõe um redimensionamento do que se
entende por essa formação. Fundamentalmente, é preciso pensar a
formação do professor como um processo, cujo início se situa muito antes
do ingresso nos cursos de habilitação – ou seja, desde os primórdios de
sua escolarização e até mesmo antes – e que depois destes tem
prosseguimento durante todo o percurso profissional do docente.

Dominicé (1988b) em uma de suas reflexões sobre o uso das histórias de
vida esclarece bem esta concepção, afirmando que: a história de vida é
outra maneira de considerar a educação. Já não se trata de aproximar a
educação da vida, como nas perspectivas da educação nova ou da
pedagogia ativa, mas de considerar a vida como o espaço de formação. A
história de vida passa pela família. É marcada pela escola. Orienta-se para
uma formação profissional, e em consequência beneficia de tempos de
formação contínua. A educação é assim feita de momentos que só
adquirem o seu sentido na história de uma vida.

Neste caso, dentro da narrativa de sua própria trajetória, seria quase
impossível separar uma coisa da outra - ser professora, mulher e negra e
se constituir como tal, a partir de sua história de vida, trazendo relatos do
seu vivido. Ao contrário do que é dito, quando adentramos a escola, se
esquece o mundo ao nosso redor, Somos atravessados por sentimentos
inerentes à condição humana. Para Goodson:

dar voz aos professores supõe uma valorização da subjetividade e o
reconhecimento do direito dos mestres de falarem por si mesmos. Além
disso, ao serem concebidos como sujeitos da investigação e não apenas
como objeto, eles deixam de ser meros recipientes do conhecimento
gerado pelos pesquisadores profissionais (GOODSON, 1994 apud BUENO,

p. 22)

Para ler o artigo completo CLIQUE AQUI e baixe o PDF. 


* Profa. Edu. Básica SME-Duque de Caxias/RJ. Profa convidada da Pós Graduação Estado e
Relações Raciais UCB. Membro da Rede Carioca de Etnoeducadoras Negras e do grupo de
pesquisa Formação de professores, Pedagogias Decoloniais, currículo e interculturalidade:
agendas emergentes na escola e na universidade/UNIRIO. Mestre em Educação/UERJ


Referência:

CRISTO, Célia. ESCREVIVÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS: REGISTROS DO VIVIDO DE PRÁTICAS DECOLONIAIS NA EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ETNICORRACIAIS. In: 13a Reunião Científica Regional da ANPEd-Sudeste, 2018, Campinas-SP. Anais das Reuniões Regionais da ANPEd, 2018.
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ESCREVIVÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NAS AÇÕES PARA AS RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS.

Por Célia Cristo*

      Este trabalho é um breve recorte de minha dissertação de mestrado intitulada “Sobre
nós, mulheres negras na escola: um estudo sobre relações raciais e perspectiva decolonial de
educação”. Cujos objetivos são apresentar e potencializar os registros do vivido, no
cotidiano escolar, realizados por praticantes docentes (PACHECO, 2008). Para isso apresento
assumindo o termo “escrevivências” (EVARISTO, 2007), como proposta metodológica na
constituição de uma escrita que compõem experiências e vivências de mulheres negras, cujos caminhos percorridos para o ato de ensinar, nos espaços oficiais de ensino, perpassaram por diversos desafios, tais como, o enfrentamento e tentativa de superação do racismo, bem como a subalternidade e invisibilidade de seus corpos. Escrevivências são narrativas constituídas tendo como lugar de fala a escrita na primeira pessoa.

      Incorporar a escrevivência me coloca na dimensão de etnoeducadora, participante,
entre outros grupos, da Rede Carioca de Etnoeducadoras Negras, uma rede que vem sendo
tecida no diálogo com a Red de Maestros y Maestras Hilos de Ananse (Colômbia) e cuja as
narrativas de práticas pedagógicas tornam-se centrais nas arenas de intercâmbio e na
experiência pessoal de construção de “contra-currículos”. Assumo a decolonialidade no
sentido de Aníbal Quijano (2005) e a escrevivência pela saída que oferece para a
compreensão dos processos educacionais circunscritos pelas práticas cotidianas escolares. Neste sentido, esta pesquisa passa a ser orientada também por um viés autobiográfico
especialmente dirigido e motivado por minhas próprias experiências, momento este, em que
me torno também sujeito da dissertação. Em que sou levada a rememorar minha trajetória
pessoal e profissional através de meus arquivos pessoais, como espaçostempos do vivido.

Esses arquivos pessoais de praticantesdocentes dos cotidianos das escolas, enquanto
espaços tempos do vivido, são lugares de memória que, por sua natureza e variedade
de registros, mesmo dispersos e fragmentados, explicitam parte das vivências desses
indivíduos, não descartando entre elas as contradições, os equívocos e as mazelas do
ofício. (PACHECO,2008. P.13)

      Compreender minha trajetória profissional, como lugar de memória, cujos estudos do
cotidiano escolar enquanto professora pesquisadora me remetem a possibilidades outras de tecer
conhecimentos integrados a outras redes de saberes de forma a contribuir para o surgimento de novas
narrativas no cotidiano escolar, em que experiências exitosas sobre a temática racial possam sem
contadas e entrelaçadas a outras experiências.
Para Nora,

os lugares de memória são, antes de tudo restos. (...) nascem do sentimento de que
não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter
aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas,
porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma
memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada
mais faz do que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória.
(...) Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam
inúteis. E se, em compensação, a história não se apodera deles para deformá-los,
sová-los e petrificá-los não se tornariam lugares de memória. (NORA, 1993, pp.12-
13 apud PACHECO, 2008, p. 20).

      É com essa memória viva com quem quero dialogar e escreviver. Pensar em um
ensino para as relações étnico raciais que dialoguem com os currículos oficiais e que não
adentrem mais o espaço “do conhecimento” de forma pontual, quase que na clandestinidade,
por estar tão à margem dos conteúdos escolares legitimados pelos conhecimentos
hegemônicos.

       Memória viva, presente nos corpos de estudantes de maioria negra na escola pública
na qual trabalho, que irei dialogar, pensando nas formas práticas emancipatórias de
construção da valorização da história e da cultura africanas, presente na história corpo,
ausente da história escrita. O que no dizer de Evaristo (2008) nos move a um ato de
insubordinação:

O que levaria determinadas mulheres, nascidas e criadas em ambientes não letrados,
e quando muito, semi-alfabetizados, a romperem com a passividade da leitura e
buscarem o movimento da escrita? Tento responder: talvez, estas mulheres (como
eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece apreensão do mundo, o de escrever
ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo
próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua auto-inscrição no interior do
mundo. E, em se tratando de um ato incompreendido por mulheres negras, que
historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados
pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação que pode se
evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “normas cultas” da língua, caso
exemplar o de Carolinas Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria
narrada.

      Esta grafia tem seu espelhamento nestes movimentos iniciados, na maioria das vezes,
em nossas casas, com nossas ancestrais bem como nas práticas pedagógicas de outras
mulheres negras, que marcam sua presença no chão da escola pesquisada, com suas práticas
de gestão . É o entrelaçamento dessas memórias que pretendo refletir e acolher em forma de
simples contribuição para o ensino da educação básica.

Para ler o artigo completo CLIQUE AQUI e baixe o PDF. 


*Profa Edu. Básica-SME/Duque de Caxias. Mestre Egressa do PPGEB /CAp-UERJ


Referência:

CRISTO, Célia. ESCREVIVÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NAS AÇÕES PARA AS RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS.. In: V Colóquio Internacional Educação, Cidadania e Exclusão, 2018, Niterói-RJ. Anais V CEDUCE. Campina Grande - PB,: Editora Realize, 2018. v. 2.


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PARA ALÉM DO BLACK-POWER: ESTÉTICAS DAS PRÁTICAS E ESCRITAS DE MULHERES NEGRAS NA EDUCAÇÃO POR UMA AFRO-(RE)EXISTÊNCIA

Por Célia Cristo* e Carla Silva**

      A experiência da colonização e posteriormente da escravização foram
atravessadas por lutas, confrontos e pela arte da sobrevivência e todas suas
representações, a liberdade sempre foi esperada. Torna-se relevante pensar numa
(re)existência desses corpos negros por perspectivas outras, uma pedagogia da
sobrevivência nascida das memórias individuias e coletivas, saberes e práticas gerados de
lutas intencionais e propositivas para a preservação da cultura, da história e do sagrado.

      É possível identificar que as representações estereotipadas sobre o que é ser negro
e seu lugar atravessou a barreira do sentimento positivo de pertença racial, ao considerar
que a maioria da população negra no Brasil estão numa situação de vulnerabilidade.
Como se educar para gostar de um corpo que tem sido invisível, excluído e negociado?

      A luta decolonial tem em si várias perspectivas, uma delas é pelo
(re)conhecimento e pelo direito de ser diferente, uma dinâmica que exige caminhar em
outra direção, como nos afirma Walsh (2016), “desaprender a modernidade racional que
me (de)formou, aprender a pensar e agir em suas fissuras e brechas, que converteram
em parte de minha localização e lugar. São parte integral de como e a partir de que lugar
me posiciono” (p. 65). O lugar do privilégio, das imunidades especiais são aproveitados
por algumas pessoas, além dos direitos comuns dos outros, lugares ocupados por
indivíduos que “raramente se revelam inclinados a abrir mão de seus privilégios”
(DOMINGUES, 2011, p. 122).

      A história da população afro-brasileira está marcada pela violência física, simbólica,
epistêmica e estrutural resultado do processo de dominação colonial e a herança da
escravização que se constituiu nas representações e práticas racializadas que se
perpetuaram, valorizando o padrão branco/europeu/moderno, tornando invisível o “Ser
Negro”.

E na medida em que as relações sociais que se estavam
configurando eram relações de dominação, tais identidades
foram associadas às hierarquias, lugares e papéis sociais
correspondentes, com constitutivas delas, e,
conseqüentemente, ao padrão de dominação que se impunha.
Em outras palavras, raça e identidade racial foram
estabelecidas como instrumentos de classificação social básica
da população (QUIJANO, 2005, p.228).

      Essa invisibilidade mascarou a realidade, negando e subalternizando os corpos, a
subjetividade e o conhecimento dos não europeus. A população negra sempre foi afetada
por essas violências e tiveram como acréscimo para sua negação existencial às ausências
de saúde, educação, trabalho e moradia. Nesse sentido, era preciso sobreviver a todas
essas ausências resistindo e promovendo lutas contra o racismo, a dominação, a
escravidão, a exclusão, a(s) colonialidade(s) e discriminações. Pensar numa educação
para além dos privilégios raciais, sociais e econômicos foram possíveis a partir dos
movimentos sociais e dos coletivos em resposta às diferentes demandas por justiça
política, social e educacional.

      Para isso apresento assumindo as “escrevivências” (EVARISTO, 2007), como proposta
metodológica na constituição de uma escrita que compõem experiências e vivências de mulheres
negras, cujos caminhos percorridos para o ato de ensinar, nos espaços oficiais de ensino,
perpassaram e perpassam por diversos desafios, tais como, o enfrentamento e tentativa de
superação do racismo, bem como a subalternidade e invisibilidade de seus corpos. Escrevivências
são narrativas constituídas tendo como lugar de fala a escrita na primeira pessoa.


Para ler o artigo completo CLIQUE AQUI e baixe o PDF.


* Profa. Edu. Básica SME-Duque de Caxias/RJ. Profa convidada da Pós Graduação Estado e
Relações Raciais UCB. Membro da Rede Carioca de Etnoeducadoras Negras e do grupo de
pesquisa Formação de professores, Pedagogias Decoloniais, currículo e interculturalidade:
agendas emergentes na escola e na universidade/UNIRIO. Mestre em Educação/UERJ

** Pedagoga pela UFRJ. Mestrado em andamento em Educação pela UNIRIO, com a pesquisa
“História, Memória E Identidade: Um Estudo da Produção Literária dos Movimentos Negros
no Brasil”. Integrante do Grupo de Pesquisa Perspectivas pós-coloniais/decoloniais, propostas
curriculares e aprendizagens outras e Grupo de Estudos e Pesquisas Formação de Professores,
Currículo (s), Interculturalidade e Pedagogias Decoloniais (GFPPD) e da Rede Carioca de
Etnoeducadoras Negras. Orientadora na disciplina Metodologia da Pesquisa no Curso de EAD/ Pedagogia na UNIRIO.


Referência:

CRISTO, Célia; SILVA, C.A. . Para além do black-power: estéticas das práticas e escritas de mulheres negras na educação por uma afro-(re)existência. In: X COPENE - CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES NEGROS, 2018, Uberlândia-MG. Anais eletrônicos, 2018.






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“PONHA OS OLHOS EM MIM”: sobre direitos humanos e memórias de luta das mulheres escravizadas no Brasil

Por Cláudia Miranda* e Carla Silva**

        Dados atuais sobre as condições e qualidade de vida das mulheres no Brasil, apontam índices consideráveis sobre as desigualdades, sobretudo, quando se comparam as condições de vida de mulheres brancas e de mulheres negras. No campo educacional a desigualdade, segundo sua cor ou raça, é de 23,5%. Brancas, com ensino superior completo, apresentam um percentual de 2,3 vezes maior que o percentual de mulheres pretas ou pardas (10,4%), que chegam a concluir a graduação. (IBGE, 2018). Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 mostram que, na divisão por cor e raça, ambos indicadores, sobre atendimento em consulta pré-natal, apresentam desigualdades: enquanto 98,6% das mulheres brancas foram atendidas em, no mínimo, uma consulta com profissional de saúde especializado, na última gravidez, entre as pretas ou pardas, esse percentual foi menor: 96,6%.

           Diante deste quadro, importa reconsiderar a urgência de políticas de equidade para garantir os direitos das mulheres. A promoção e o estabelecimento do acesso a direitos justos para todas as pessoas, independente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição, tem sido, de fato, um exercício contínuo na sociedade contemporânea. Alargar esses direitos entre os grupos subrepresentados - comunidades LGBT, mulheres, negras/os e crianças -, e que sofrem ações de diferentes formas de violação de seus corpos, tem sido pauta prioritária nas agendas dos movimentos sociais. Os direitos humanos envolvem principalmente o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, direito ao trabalho, à saúde e à educação. Portanto, para os estudos sobre os direitos humanos na educação, é necessário um recorte racial, é necessário debatermos as causas e as consequências desse panorama.

           Nossas pesquisas sobre desigualdade de gênero e sobre luta antirracista nos levaram ao tema da reinvenção de si, de mulheres escravizadas. As trajetórias de Esperança Garcia e de Gertrudes Maria estão marcadas pela agência1 política em contexto de escravização. Referimo-nos a duas pessoas que viveram na condição de escravizadas e mesmo sob essa absoluta violação de sua existência, realizaram feitos de impacto para a coletividade e resistiram a processos violentos - tanto psíquicos como físicos. Suas práticas discursivas foram inseridas, nesse trabalho, com o propósito de analisarmos práticas de intervenção social e aspectos da agência política. O foco está nas estratégias de denúncia, por parte de sujeitas negras - africanas e afro-brasileiras que são importantes presenças na memória de luta dos afro-brasileiros e das afro brasileiras. Adotamos, como aporte teórico, a perspectiva da história social e do pensamento decolonial na América Latina, para discutir os conceitos de memória, gênero e raça, no intento de abordar o lugar da mulher escravizada na historiografia oficial e na proposição de “aprendizagens decoloniais” (grifos nossos).

            Podemos supor que esses são episódios históricos de insurgência negra na qual se analisa a escrita como uma forma de mobilização também coletiva. A tomada de posição ao produzirem discursos contra hegemônicos é, portanto, reflexo da ética fanoniana2 sendo, portanto, ações não só para si, mais para as famílias escravizadas e a comunidade formada no entorno. E por criar uma rede de proteção, de solidariedade e, ainda, de sentido comum.

            Recuperar as estratégias performáticas de sujeitas negras, passa a ser um exercício de justiça social, mas sobretudo uma metodologia para desclandestinizar a existência na Diáspora Africana. A disputa epistemológica da qual fazemos parte, implica revermos as referências legitimadas para o campo das Ciências Sociais e para o campo da Educação. Nessas áreas, alguns grupos de investigadoras/es têm indicado esses percursos de insurgência e suas imbricações. Em destaque estão autoras como: Joselina da Silva (2009, 2018), Solange Pereira da Rocha (2001), Conceição Evaristo (2007), entre muitas outras. Problematizar os aspectos que trabalharam em sua produção, é, por exemplo, participar de uma política de citação onde essa produção muda de status. E, ao mesmo tempo, é provocar uma reflexão sobre como é fundamental reconhecer processos de violação de subjetividades clandestinizadas de segmentos inteiros que fazem parte da Diáspora Africana. Não obstante, a condição de clandestinização3 de mulheres escravizadas deve ser melhor estudada.

Para ler o artigo completo CLIQUE AQUI e baixe o PDF.


* Doutora em Educação (PROPEd/UERJ), É professora associada do Departamento de Didática e do Programa de Pós-Graduação da UNIRIO. Coordena os projetos de pesquisa Intercâmbio Colômbia – Brasil: experimentos afrolatinos e diálogos interculturais na produção do conhecimento refletida nas políticas curriculares e o projeto Como a Educação Intercultural impacta as políticas e as práticas curriculares no Brasil e na Colômbia: um estudo comparado sobre a participação do Grupo de Trabalho da CLACSO Afrodescendiente (2017/2019) movimentos pedagógicos e as perspectivas de gestores/as e etnoeducadores/as.

**Mestre em Educação (PPGEdu/UNIRIO).


Referência:

Cláudia Miranda, Carla Silva. Plurais - Revista Multidisciplinar. Revista do Programa de Pós-graduação Gestão e Tecnologias Aplicadas à Educação da Universidade do Estado da Bahia – GESTEC UNEB - Educação e Diferença - Salvador, v. 4, n.1, p. 92-115, jan./abr. 2019





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Sobre

Esse grupo tem por objetivos entender a transposição/mediação cultural, a diversidade das/nas práticas curriculares e as interseções viáveis entre a escola e a universidade públicas. Mapear aspectos sobre o cotidiano escolar com base nos Estudos Culturais, os Estudos da Educação das Relações Étnico-raciais, da Sociologia das Desigualdades, da Antropologia e dos Estudos do Cotidiano em Educação. Entender e analisar as formas de consolidação de espaços mais interculturais e menos monolíticos na interseção escola-universidade.

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