quinta-feira, 16 de maio de 2019

ESCREVIVÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NAS AÇÕES PARA AS RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS.

Por Célia Cristo*

      Este trabalho é um breve recorte de minha dissertação de mestrado intitulada “Sobre
nós, mulheres negras na escola: um estudo sobre relações raciais e perspectiva decolonial de
educação”. Cujos objetivos são apresentar e potencializar os registros do vivido, no
cotidiano escolar, realizados por praticantes docentes (PACHECO, 2008). Para isso apresento
assumindo o termo “escrevivências” (EVARISTO, 2007), como proposta metodológica na
constituição de uma escrita que compõem experiências e vivências de mulheres negras, cujos caminhos percorridos para o ato de ensinar, nos espaços oficiais de ensino, perpassaram por diversos desafios, tais como, o enfrentamento e tentativa de superação do racismo, bem como a subalternidade e invisibilidade de seus corpos. Escrevivências são narrativas constituídas tendo como lugar de fala a escrita na primeira pessoa.

      Incorporar a escrevivência me coloca na dimensão de etnoeducadora, participante,
entre outros grupos, da Rede Carioca de Etnoeducadoras Negras, uma rede que vem sendo
tecida no diálogo com a Red de Maestros y Maestras Hilos de Ananse (Colômbia) e cuja as
narrativas de práticas pedagógicas tornam-se centrais nas arenas de intercâmbio e na
experiência pessoal de construção de “contra-currículos”. Assumo a decolonialidade no
sentido de Aníbal Quijano (2005) e a escrevivência pela saída que oferece para a
compreensão dos processos educacionais circunscritos pelas práticas cotidianas escolares. Neste sentido, esta pesquisa passa a ser orientada também por um viés autobiográfico
especialmente dirigido e motivado por minhas próprias experiências, momento este, em que
me torno também sujeito da dissertação. Em que sou levada a rememorar minha trajetória
pessoal e profissional através de meus arquivos pessoais, como espaçostempos do vivido.

Esses arquivos pessoais de praticantesdocentes dos cotidianos das escolas, enquanto
espaços tempos do vivido, são lugares de memória que, por sua natureza e variedade
de registros, mesmo dispersos e fragmentados, explicitam parte das vivências desses
indivíduos, não descartando entre elas as contradições, os equívocos e as mazelas do
ofício. (PACHECO,2008. P.13)

      Compreender minha trajetória profissional, como lugar de memória, cujos estudos do
cotidiano escolar enquanto professora pesquisadora me remetem a possibilidades outras de tecer
conhecimentos integrados a outras redes de saberes de forma a contribuir para o surgimento de novas
narrativas no cotidiano escolar, em que experiências exitosas sobre a temática racial possam sem
contadas e entrelaçadas a outras experiências.
Para Nora,

os lugares de memória são, antes de tudo restos. (...) nascem do sentimento de que
não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter
aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas,
porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma
memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada
mais faz do que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória.
(...) Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam
inúteis. E se, em compensação, a história não se apodera deles para deformá-los,
sová-los e petrificá-los não se tornariam lugares de memória. (NORA, 1993, pp.12-
13 apud PACHECO, 2008, p. 20).

      É com essa memória viva com quem quero dialogar e escreviver. Pensar em um
ensino para as relações étnico raciais que dialoguem com os currículos oficiais e que não
adentrem mais o espaço “do conhecimento” de forma pontual, quase que na clandestinidade,
por estar tão à margem dos conteúdos escolares legitimados pelos conhecimentos
hegemônicos.

       Memória viva, presente nos corpos de estudantes de maioria negra na escola pública
na qual trabalho, que irei dialogar, pensando nas formas práticas emancipatórias de
construção da valorização da história e da cultura africanas, presente na história corpo,
ausente da história escrita. O que no dizer de Evaristo (2008) nos move a um ato de
insubordinação:

O que levaria determinadas mulheres, nascidas e criadas em ambientes não letrados,
e quando muito, semi-alfabetizados, a romperem com a passividade da leitura e
buscarem o movimento da escrita? Tento responder: talvez, estas mulheres (como
eu) tenham percebido que se o ato de ler oferece apreensão do mundo, o de escrever
ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo
próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua auto-inscrição no interior do
mundo. E, em se tratando de um ato incompreendido por mulheres negras, que
historicamente transitam por espaços culturais diferenciados dos lugares ocupados
pela cultura das elites, escrever adquire um sentido de insubordinação que pode se
evidenciar, muitas vezes, desde uma escrita que fere “normas cultas” da língua, caso
exemplar o de Carolinas Maria de Jesus, como também pela escolha da matéria
narrada.

      Esta grafia tem seu espelhamento nestes movimentos iniciados, na maioria das vezes,
em nossas casas, com nossas ancestrais bem como nas práticas pedagógicas de outras
mulheres negras, que marcam sua presença no chão da escola pesquisada, com suas práticas
de gestão . É o entrelaçamento dessas memórias que pretendo refletir e acolher em forma de
simples contribuição para o ensino da educação básica.

Para ler o artigo completo CLIQUE AQUI e baixe o PDF. 


*Profa Edu. Básica-SME/Duque de Caxias. Mestre Egressa do PPGEB /CAp-UERJ


Referência:

CRISTO, Célia. ESCREVIVÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NAS AÇÕES PARA AS RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS.. In: V Colóquio Internacional Educação, Cidadania e Exclusão, 2018, Niterói-RJ. Anais V CEDUCE. Campina Grande - PB,: Editora Realize, 2018. v. 2.


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Sobre

Esse grupo tem por objetivos entender a transposição/mediação cultural, a diversidade das/nas práticas curriculares e as interseções viáveis entre a escola e a universidade públicas. Mapear aspectos sobre o cotidiano escolar com base nos Estudos Culturais, os Estudos da Educação das Relações Étnico-raciais, da Sociologia das Desigualdades, da Antropologia e dos Estudos do Cotidiano em Educação. Entender e analisar as formas de consolidação de espaços mais interculturais e menos monolíticos na interseção escola-universidade.

Publicações por ano

Marcadores