As “escrevivências” são narrativas constituídas tendo como lugar de fala
a escrita na primeira pessoa. Neste caso, a narrativa da trajetória de
professoras negras tendo o chão da escola pública, um dos meus
principais lugares de fala e de escuta. Trazendo práticas emancipatórias
de educadoras negras e no diferencial de um trabalho com foco no
chamado “ensino fundamental” na rede municipal de ensino de Duque de
Caxias, Baixada Fluminense - Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A
centralidade está na perspectiva emancipatória localizada no trabalho de
mulheres negras e tem pontos de contato com estudos de cunho
etnográfico e autobiográfico.
Para contextualizar a fala, no campo das (auto) biografias, destaca-se a
pesquisa de Bueno (2002, p. 13):
No âmbito dos estudos mais recentes sobre formação de professores
notável a ênfase que se tem posto sobre a pessoa do professor, aspecto
este nitidamente ignorado, ou mesmo desprezado, nos períodos
anteriores à década de 1980. Essa viragem, tal como António Nóvoa
caracteriza o redirecionamento das pesquisas e das práticas de formação,
tem início, segundo ele, com a obra de Ada Abraham – O professor é uma
pessoa – , publicada em 1984, pois é a partir de então “que a literatura
pedagógica foi invadida por obras e estudos sobre a vida dos professores,
as carreiras e os percursos profissionais, as biografias e autobiografias
docentes ou o desenvolvimento pessoal dos professores” (Nóvoa,1992,
p.15).
Mesmo sendo objeto recente de pesquisas, professores(as), sobretudo, as
professoras negras, têm muito a relatar. Para tanto, tomamos por
empréstimo algumas reflexões da tese de doutoramento do professor
Dirceu Castilho Pacheco cujo trabalho (auto) biográfico revelou traços
importantes de sua memória enquanto docente, junto aos de outros
docentes, bem como as práticas pedagógicas tecidas no chão da escola
surgidas nos diferentes espaçostempos dos/nos cotidianos escolares.
Segundo Pacheco (2008, p. 169):
Discriminada ao ser considerada para as pesquisas hegemônicas uma
atividade menor e de forma indevida como meramente repetitiva, as
práticas e, nelas, as ações singulares dos/das praticantes presentes
nesses registros do vivido são constituintes fundamentais para se pensar
e refletir as escolas em seus movimentos cotidianos.
O registro das práticas docentes torna-se valorizado, pois coloca os
profissionais da educação, não apenas os professores (entendendo que
todos educam), mas também os demais componentes da comunidade
escolar como diretores, membros da equipe técnico-pedagógica, pessoal
administrativos, estudantes, responsáveis, equipe da cozinha, porteiros e
equipe de limpeza, como sujeitos, na condição de protagonistas com
relevantes contribuições para o campo da educação.
Dentre outros argumentos que justifiquem as (auto) biografias, neste
caso para a formação de professores, Bueno (2002, p. 22), citando
Dominicé, destaca que:
Argumentar nestes termos supõe um redimensionamento do que se
entende por essa formação. Fundamentalmente, é preciso pensar a
formação do professor como um processo, cujo início se situa muito antes
do ingresso nos cursos de habilitação – ou seja, desde os primórdios de
sua escolarização e até mesmo antes – e que depois destes tem
prosseguimento durante todo o percurso profissional do docente.
Dominicé (1988b) em uma de suas reflexões sobre o uso das histórias de
vida esclarece bem esta concepção, afirmando que: a história de vida é
outra maneira de considerar a educação. Já não se trata de aproximar a
educação da vida, como nas perspectivas da educação nova ou da
pedagogia ativa, mas de considerar a vida como o espaço de formação. A
história de vida passa pela família. É marcada pela escola. Orienta-se para
uma formação profissional, e em consequência beneficia de tempos de
formação contínua. A educação é assim feita de momentos que só
adquirem o seu sentido na história de uma vida.
Neste caso, dentro da narrativa de sua própria trajetória, seria quase
impossível separar uma coisa da outra - ser professora, mulher e negra e
se constituir como tal, a partir de sua história de vida, trazendo relatos do
seu vivido. Ao contrário do que é dito, quando adentramos a escola, se
esquece o mundo ao nosso redor, Somos atravessados por sentimentos
inerentes à condição humana. Para Goodson:
dar voz aos professores supõe uma valorização da subjetividade e o
reconhecimento do direito dos mestres de falarem por si mesmos. Além
disso, ao serem concebidos como sujeitos da investigação e não apenas
como objeto, eles deixam de ser meros recipientes do conhecimento
gerado pelos pesquisadores profissionais (GOODSON, 1994 apud BUENO,
p. 22)
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* Profa. Edu. Básica SME-Duque de Caxias/RJ. Profa convidada da Pós Graduação Estado e
Relações Raciais UCB. Membro da Rede Carioca de Etnoeducadoras Negras e do grupo depesquisa Formação de professores, Pedagogias Decoloniais, currículo e interculturalidade:
agendas emergentes na escola e na universidade/UNIRIO. Mestre em Educação/UERJ
Referência:
CRISTO, Célia. ESCREVIVÊNCIAS DE PROFESSORAS NEGRAS: REGISTROS DO VIVIDO DE PRÁTICAS DECOLONIAIS NA EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES ETNICORRACIAIS. In: 13a Reunião Científica Regional da ANPEd-Sudeste, 2018, Campinas-SP. Anais das Reuniões Regionais da ANPEd, 2018.
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